15Dezembro2017

O Encontro com Gaia

Gaia, também conhecida como Terra, chega aos seus 4 bilhões e meio de anos, em meio a muitos conflitos e dores. Procurando ajuda. Aconselharam-lhe que se consultasse com alguém. Nostálgica, lembra-se de seus primórdios, quando em eras frias e insólitas, sem outras criaturas que fizessem parte de seu corpo, redondo e azul, inquietava-se em constantes transformações. Foi por muito tempo solitária, repleta apenas de gases, elementos químicos e líquidos, mas, a certa altura, num de seus intempestivos rompantes, há alguns milhões de anos, inovou com forças criativas, e fez, surgir em si, água nutritiva e proteica, berço perfeito para seres vivos.

Foi então que deixou de ser a única a criar. Pois esta tal vida, também começou a se criar, a si mesma. Se multiplicou muito, em várias espécies, sendo as mais recentes, mais dominantes. Povoaram o corpo de Gaia e se autodenominaram “seus filhos”. Construíram belezas e histórias. Incluíram, em sua obra, o dom de refletir sobre si próprios. Também se imputaram uma capacidade inacreditável de fazer arte e criar artifícios. Ferramentas que usaram para alterar, interferir, remexer, remodelar, consumir recursos, às vezes ameaçar e se já não bastasse, lutar entre si por espaço e poder, esquecendo-se inclusive de que não são únicos, independentes e nem individuais, mas que estão todos conectados a este corpo esférico e índigo, que lhes garantiu origem e ainda lhes mantém.

Assim, com todas estas questões, chega Gaia ao local onde buscou ajuda, encara o ser que lhe concede a consulta e externando seu momento de crise lhe pergunta: O que faço com meus filhos e filhas em luta constante dentro de mim e me exaurindo de todas as energias? 

O ser consultado, que não importa aqui de que categoria ou plano pertence, mas que estava apto a atendê-la, acena complacentemente com a cabeça e a acolhe, respondendo: -Podemos investigar juntos uma forma espontânea e criativa que lhes traga o equilíbrio. Surge então o convite sociopsicodramático à Gaia e seus filhos.

Imaginemos aqui uma cena sem tempo, sem lugar e sem categoria de seres. Apenas traços de um apelo existencial do planeta, neste trecho fictício, concretizando-se a partir de um pedido de socorro pelo sofrimento, exaustão e imenso desequilíbrio. Poderíamos continuar percorrendo tal cena, como se fôssemos os Diretores deste Psicodrama, buscando com nossa protagonista Gaia saídas para tal queixa. Porém, parto em uma breve viagem pelo pensamento de Moreno, e por aquilo que nos faz encontrar nele, campo fértil para questões conectadas com as dores de Gaia. Como podemos a partir da Socionomia encontrar novas formas de nos relacionar em maior equilíbrio com e no Planeta ?

Moreno pressentiu que necessitaríamos urgentemente repensar como nos relacionamos, e na década de 1950, lançou um livro que fez à humanidade a seguinte pergunta: Quem Sobreviverá? Não eram exatamente ecológicas as suas preocupações, mas na verdade, a tentativa de encontrar métodos científicos para compreender o que ocorria nas sociedades humanas e a quais extremos chegaríamos desta forma. 

Em suas experiências anteriores, incluindo campos de refugiados, prisões e instituições de acolhimento de jovens, construiu seu enfoque social e percebeu que haviam intervenções possíveis que poderiam prevenir a violência e promover o bem estar coletivo.

Privilegiava o olhar para as relações, e paradoxalmente responsabilizava o ser humano, impondo-lhe o papel de Deus e de criador de sua própria história e destino. Em 1915, No poema Convite a um Encontro sugeriu que Arrancássemos nossos olhos e enxergássemos o mundo a partir das perspectivas uns dos outros. Nesta contemporaneidade, que nos faz apressadamente não contemplar Gaia e seus habitantes, em suas generosidades e em suas dores, expressas em mudanças climáticas, em conflitos e desigualdades sociais, em milhares de refugiados errantes, há algo mais útil a fazer ? Moreno buscava uma nova linguagem, não só para responder às suas perguntas, mas para nos mostrar que somos todos co-criadores de nossa realidade, de nossos problemas e também de suas soluções.

Bibliografia:

MARINEAU, R.F. Jacob Levy Moreno 1889-1974 – Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. São Paulo. 1989.

MORENO, J.L. Quem Sobreviverá ? vols. 1, 2 e 3. Goiânia: Dimensão, 1992.



Débora de Mello e Souza

Psicóloga Psicodramatista pelo convênio PUC- SOPSP

Supervisora e Didata em Formação pela SOPSP (2015-2016)

Mestranda em Psicologia pela PUC- SP

- Núcleo de Configurações Contemporâneas

 da Clínica Psicológica com foco em

Psicologia Ambiental e Sustentabilidade.

Fundadora da Lanakaná Princípios Sustentáveis

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