15Dezembro2017

Cala a boca, celular!

Ah, como eu gostaria de poder silenciar todos os celulares em funcionamento nos lugares públicos

Cena 1 – Ônibus

O meu ônibus para Jundiaí acaba de sair da Rodoviária Tietê.  Vou para uma reunião numa empresa.

Nem bem o ônibus fez a curva na avenida, vários celulares “falam” ao mesmo tempo, sem parar, não dão trégua, e ouve-se claramente a fala de uma mulher em voz alta, 5 fileiras atrás da minha :

 - João? Você taí? Aãã...tá! Mas espere eu chegar que eu vou dar o remédio. João? Você tá me ouvindo? É que o celular “faiô”..olha me escuta! Quando eu chegar vou ti buscá para ti  levá no centro do Pai Zé prá ele te benzê. João? Isto num é doença, não! É coisa espiritual, eu sinto a vibração de coisa ruim daqui pelo celular...tô toda arrepiada ! Mas toma teu remédio do dotô lá do posto tá bem? Me espera!

Nova ligação da mesma mulher:

- Maria? Maria, ele num tá doente dos “rim” nada. Urina escura? Então...num tô falando? É coisa do diabo! Ele precisa do Pai Zé!

Cena 2 – Aeroporto - 06h da manhã – Congonhas, São Paulo.

Sala de embarque lotada, gente em pé.  Penso com meus botões: para onde vão todas estas pessoas de maletas na mão, laptops fora das mochilas de rodinhas da moda, iphones, ipads, tablets e...evidente.... celulares, à mostra de todos. Vitrine!

Todas as mãos, febrilmente seguram um celular e o levam ao pé do ouvido e falam falam, falam, e falam mais, até sentar-se dentro do avião, e mesmo assim....falam até o último minuto...até a comissária avisar para desligar os celulares.

Com quem será que falam às 6 (seis) da manhã? Com a China? Com a Europa? Com mamãe? Com quem dormiu? ...Oi chefe. Tô chegando?.. E quando o avião pousa, então? Uma coceira de urtiga se espalha pelas mãos para ligar os benditos celulares... Por que precisam tanto falar sem parar? Solidão? Ansiedade em relação ao tempo? Aproveitar cada minuto para “fazer” algo? Será que falam não havendo ninguém do outro lado para não se sentirem sozinhos ali naquela multidão? Seria muito louco, não é? Perderam (ou nunca tiveram) momentos de sentir, de pensar por si, em si, devanear, sonhar, sentir saudades, projetar a vida, fazer planos?

Como psicodramatista observo: um agrupamento temporário cujos critérios de aproximação são dados pelas escolhas que cada um fez ao marcar o horário de vôo. Agrupamento vivido por uma curta duração, sem vinculação real e complementaridades. Vizinhanças que logo se desfazem quando cada um vai para seu avião. Não há ali uma rede sociométrica à la Moreno - não é uma cena de rede grupal mas de isolamentos: um mapa de isolados, no aqui e agora, fugaz. E cada um vai para seu locus profissional ou afetivo, aí sim, jogando um papel em relação.

Chego ao meu destino e meus grupos me trazem novas pautas.